Quatro amigos


















Não sei exatamente em que ano conheci o António Mega Ferreira. Foi talvez em 1969 ou 70, através do Vicente Jorge Silva. 

Este esteve em Paris nos anos 60, e aí conheceu o meu pai. Quando ia regressar a Portugal, em 1969, convidou-o para colaborar num jornal que ia dirigir na Madeira, o Comércio do Funchal, um semanário económico a que queria dar um cunho politico. O meu pai não recusou, mas lá foi dizendo que tinha pouca disponibilidade – e adiantou o nome de um filho que escrevia e talvez tivesse mais tempo livre. Esse filho era eu, como se depreende. De passagem por Lisboa, o Vicente ligou-me, combinámos um encontro, gostei logo dele, e assim me tornei colaborador do CF – um jornal de cor salmão que rapidamente conquistou espaço e prestigio não só na Madeira como no continente, sobretudo entre a intelectualidade mais jovem.

Aí conheci, entre várias pessoas da Madeira e de cá, o António Mega Ferreira. Como eu, pertencia ao ‘grupo de Lisboa’. 

Veio o 25 de Abril, o CF foi alvo de uma ocupação selvagem por parte de um grupelho de extrema-esquerda, o Vicente Jorge Silva veio para o continente e encontrou emprego no Expresso como jornalista. Tinha a seu cargo a área sindical, onde então pontificava a poderosa CGTP- Intersindical, que ele detestava. 

Com a sua vinda para Lisboa estreitámos relações, começámos a almoçar com regularidade, escrevi um livro com ele – o 25 de Abril Visto da História –, passei a colaborar regularmente no Expresso e, a seu convite, iniciei uma coluna de opinião chamada Política à Portuguesa.

Ora, nessa altura, também fazia parte da redação do Expresso o António Mega Ferreira, bem como uma jornalista de nome Helena Vaz da Silva. Os três eram muito próximos. Unia-os, para além naturalmente de uma compatibilidade de feitios, o facto de serem todos de esquerda, mas de uma esquerda independente, não-alinhada. Uma esquerda rebelde em relação aos partidos. E tinham todos uma considerável bagagem cultural. Eram pessoas ‘do mundo’, num Portugal provinciano que durante décadas fora muito fechado.

Juntei-me a esse grupo, cujas ideias no essencial partilhava. Era um ‘membro adotivo’, pois era arquiteto e trabalhava num atelier de arquitetura, enquanto eles eram todos jornalistas e trabalhavam na mesma redação. 

O Vicente Jorge Silva dizia que a ambição do Mega era ser diretor de um jornal – e eu considerava isso uma ambição limitada. Éramos muito jovens, podíamos sonhar alto, em grande. E eu, que desenhava obras pensadas para durar 50, 100, duzentos anos, achava estranho ter-se como ambição máxima ser responsável por um produto efémero, que durava um dia, no máximo uma semana, e depois servia para forrar os caixotes do lixo.

Mas o Mega tinha grandes qualidades. Era inteligente, culto, com uma grande diversidade de interesses e uma enorme curiosidade intelectual. Dos quatro, talvez fosse o mais eclético: interessava-se por música, por literatura, por artes plásticas, por cinema, por política, por história, e em todas estas áreas tinha bons conhecimentos. E era uma pessoa ponderada, madura.

Em 1975 ou 76 fui convidado pelo então diretor-geral de Ação (ou Animação) Cultural, João Medina, para escrever um livro sobre a ‘vida quotidiana em Portugal depois do 25 de Abril’. Achei a tarefa interessante mas homérica, e convidei para trabalhar comigo o Mega, que talvez até tivesse mais vocação para o tema do que eu. Fomos almoçar ao restaurante António, na rua Viriato, perto do meu atelier, mas ele recusou.

Todas as semanas eu ia ao Expresso levar a minha crónica. Um dia, tendo eu escrito na semana anterior um texto chamado A esquerda não existe, cruzei-me com ele num corredor e perguntou-me: «Hoje escreves o quê? A direita nunca existiu?». Ora, era exatamente este o título da crónica que eu levava na mão! 

O Mega era muito convicto das suas ideias, e um dia disse-me: «Uma pessoa inteligente não pode deixar de ser de esquerda». Eu conhecia pessoas inteligentes de direita, mas não o contrariei.

Do grupo, ele era o mais próximo do PS, enquanto a Helena Vaz da Silva era mais próxima do PSD. O Vicente era um libertário, com uma costela anarquista, impossível de acomodar num partido. Eu também não tinha qualquer vocação para uma militância partidária, até porque havia o exemplo do meu pai, que fora militante do PCP e se tornara muito crítico.

O país vivia um período febril – o pós-revolução, o Verão quente de 75 – e o pequeno grupo que o Vicente, o Mega, a Helena e eu formávamos durou pouco tempo, que pareceu imenso. Uns dois ou três anos, vividos intensamente, do mesmo lado da barricada, numa esquerda preocupada com a ascensão do PCP. 

Depois cada um seguiu o seu caminho. O Vicente ficou no Expresso, onde fundaria A Revista e seria diretor-adjunto, saindo depois para fundar o Público. A Helena foi para a RTP, tornou-se produtora cultural, dirigiu o Centro Nacional de Cultura, depois foi deputada europeia. Eu fiquei no atelier e mais tarde fui para a direção do Expresso, onde estaria 23 anos, fundando depois o SOL. O Mega foi o que teve uma vida profissional mais variada. Esteve na RTP, onde apresentou um Telejornal, trabalhou num semanário concorrente do Expresso, chamado O Jornal, foi diretor de várias publicações – cumprindo a sua ambição antiga… – tornou-se gestor, foi comissário e grande impulsionador da Expo 98, diretor do CCB.

Teve uma brilhantíssima carreira de jornalista e de gestor público, esta muito ligada à cultura e mesmo à… construção civil. O que era irónico: eu que o ‘criticara’ por ter a ambição de dirigir um jornal, era diretor do Expresso, enquanto ele impulsionava… obras públicas. Tínhamos quase trocado de papéis! 

Há uns anos, escrevi um texto onde dizia que as amizades têm um tempo. Com raras exceções, os grupos de amigos correspondem a certos períodos da vida; depois dispersam-se. E aí falei deste grupo. Ora, uns dias mais tarde, recebi uma mensagem não assinada que dizia: «As amizades são como as flores – têm de ser regadas». 

Ainda hoje não sei de quem era, mas sempre suspeitei que fosse do Mega. Resta dizer que desse grupo já só há um sobrevivente. A Helena Vaz da Silva faleceu em 2002, com 63 anos, o Vicente Jorge Silva em 2020, com 74 anos, o António Mega agora, com 73.

Partiram todos demasiado cedo. Mas marcaram uma geração.



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