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Estreia de ‘Pentesileia’ dedicada ao encenador Rogério de Carvalho

António Pires recordou o mestre com quem começou a fazer teatro, em declarações à imprensa no final de um ensaio da peça, e frisou que a ideia inicial era dividir esta versão da tragédia em duas partes, repartindo a encenação com o encenador luso-angolano, professor durante décadas do Conservatório Nacional e da Escola Superior de Teatro e Cinema, com uma carreira premiada, assente em mais de uma centena de espetáculos estreados em palcos portugueses.

“Por razões que não interessa, acabou por não acontecer, embora Rogério de Carvalho ainda tenha acompanhado durante uma semana e tal os primeiros ensaios, as leituras”, o que leva António Pires a afirmar: “Para mim, isto é um bocadinho uma peça para ele”.

“Ele foi meu professor”, afirmou António Pires. “Eu comecei a fazer teatro com o Rogério e teria sido muito prazeroso ter feito esse trabalho” com ele.

A tragédia do autor alemão que se estreia agora em sala, em Portugal, a partir de uma nova tradução de Luísa Costa Gomes, é um projeto que a escritora, tradutora e dramaturga tem “há muitos, muitos anos”, disse a autora de “Educação para a tristeza”, aos jornalistas.

“Li a peça e achei que era uma peça única e completamente extraordinária. Havia uma tradução dos anos 2000, mas não me pareceu que estivesse muito adequada ao palco”, observou.

Traduzida pela escritora em 2020, ‘Pentesileia’ já era para ter sido representada, mas a pandemia de covid-19 obrigou a que as programações fossem refeitas, tendo atirado a estreia do espetáculo para agora, acrescentaram Luísa Costa Gomes e António Pires.

Com ‘Pentesileia’, encenador e tradutora regressam ao universo dramatúrgico do autor alemão depois de, em 2010, terem trabalhado juntos no espetáculo ‘O príncipe de Homburgo’, estreado no Centro Cultural de Belém.

O texto integral da tragédia de Kleist (1777-1811), centrada na história da deusa que dá título à peça, está agora traduzido para palco e será editado em livro, com a chancela Ar de Filmes/Teatro do Bairro.

Por ser uma peça muito longa, e de “descrições que se eternizavam e eram muito pormenorizadas”, como a definiu Luísa Costa Gomes, António Pires teve de ir cortando, num espetáculo que a escritora, dramaturga e tradutora considera “muito bem resolvido” na encenação, e que explica o porquê de as amazonas “virem por aí fora fazer a guerra e meterem-se no meio da guerra de Troia”.

“Obviamente, era uma explicação que tinha de se manter, são dez páginas”, sustentou.

Para Luísa Costa Gomes – que se confessa “uma maluquinha do Kleist” -, ‘Pentesileia’ é uma tragédia clássica, que o encenador depois faz em cenas, “tem unidade de tempo e de espaço e todas essas características”.

Kleits, “em geral, é muito pouco conhecido, porque ele diz muitas verdades, todas muito juntas”, frisou a tradutora, ao mesmo tempo que sorria, juntamente com o encenador.

“As verdades são uma de cada vez e depois [é preciso ir] para casa digerir e tal”, frisou.

Numa peça de descrições, como Luísa Costa Gomes a define, António Pires sublinha que, “como conhece muito bem o texto”, olha para o espetáculo e “fica sempre com a sensação de que está a passar por cima de coisas”.

“Mas não era possível, tínhamos de a travar”, acrescentou o encenador, numa referência à extensão do texto original e à sua transposição para cena.

Sobre o fascínio por Kleist, Luísa Costa Gomes explica-o por ter “muito pouco talento para os enredos” e “muito fascínio pelas pessoas que são muito intriguistas”.

“Kleist é um natural intriguista”, sustentou. “Tem umas intrigas sempre completamente surpreendentes e é tudo inesperado, como a realidade”.

A ideia do autor é sempre que “nós não controlamos coisa nenhuma e as coisas vão acontecendo como alucinações, como visões”, prosseguiu a escritora, argumentando com o facto de a protagonista da peça, interpretada por Rita Durão, “sonhar a realidade”.

E foi muito difícil na encenação dar a ideia de que o sonho é a realidade e a realidade é o sonho, que não são aspetos da experiência humana indistinguíveis. A ideia é a indistinção, sublinha Luísa Costa Gomes, a propósito da personagem Pentesileia que, a determinada altura da peça, acorda e diz “eu sonhei aquilo que se passou”.

“É como uma pessoa ser paranoica com uma razão objetiva de ser paranoica”, frisou a tradutora e dramaturga.

“Do ponto de vista literário, é um texto tão rico… É um tratado de psicanálise”, assegurou Luísa Costa Gomes, concluindo que a obra “tem intuições”, em que depois Sigmund Freud acaba por pegar.

A interpretar ‘Pentesileia’, no Teatro do Bairro, estão também Alexandra Sargento, Carolina Serrão, Francisco Vistas, Graciano Dias, Iris Tuna, Jaime Baeta, João Barbosa, Tiago Negrão e Vera Moura.

Com cenário de Alexandre Oliveira, figurinos de Luísa Pacheco, desenho de luz de Rui Seabra, e desenho de som de Paulo Abelho, o espetáculo estará em cena até 05 de fevereiro, com sessões de quarta a sexta-feira, às 21:30, e, ao sábado e domingo, às 18:00.

No dia 29, a récita terá tradução em Língua Gestual Portuguesa.

Em 2012, uma ‘versão laboratório comunitária’ de ‘Pentesileia’ – “Penthesilia, dança solitária para uma heroína apaixonada” -, sobre a tradução de Rafael Gomes Filipe (edição Porto Editora), foi estreada em Guimarães Capital Europeia da Cultura, apresentada no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e no Festival Materiais Diversos, em Alcanena, que acolhera a sua produção.

Este texto de Kleist, a par de obras de Peter Handke, Shakespeare e Carlos J.Pessoa, foi também uma das referências da peça “Quadros de uma exposição”, estreada em 2004, pelo Teatro da Garagem, em Lisboa.

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