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Opinião: Espreitar Pingyao China-2011

José Luís Santos

Pouco passa da meia noite quando o comboio chega a Pingyao, uma cidade muralhada chinesa conhecida pela sua bem preservada arquitetura da dinastia Ming, erigida entre os séculos XIV e XVII. Oito horas depois de sair de Datong, uma outra urbe histórica, situada a norte, tinha desta vez um espaço garantido para passar a noite, ao contrário do que tinha acontecido na anterior.
Quando a concorrência aperta, como foi aqui o caso, há hostels que vão buscar os clientes à estação, uma opção muito em conta quando se chega a horas tardias e sem uma noção do sítio para onde nos devemos dirigir. Não era o único viajante nestas condições, pelo que rapidamente se formou ali um pequeno grupo em busca do “Harmony Hostel”, esperando cada um a sua vez para embarcar num monovolume à medida que o seu nome aparecia num cartaz feito à pressa e cheio de erros ortográficos. Quem já passou por uma situação inversa sabe bem dar valor ao pequeno mimo de se ir buscar alguém madrugada dentro e levar a bagagem rumo ao ponto onde o corpo pede repouso para passar a noite. O espaço espanta e encanta pelo seu bom gosto e exotismo, mas a fadiga fala mais alto, e por razões de força maior sinto-me encaminhado na direção do tão esperado leito.
Pela manhã, as energias estão retemperadas e a ânsia de partir à descoberta da cidade são razões mais que suficientes para não me deixar ficar na cama. O sol, radioso, exalta os tons quentes da cidade. As ruas estão animadas com pregões de vendedores que tentam fazer negócio com as multidões que as calcorreiam de fio a pavio sob o aroma perfumado das árvores já centenárias que dão sombra e ambiente aquele museu a céu aberto.
Prefiro embrenhar-me pelas artérias secundárias, onde os turistas nem se dão ao luxo de espreitar pois não constam nos roteiros assinalados pelos seus guias de viagem. Aí esconde-se uma China mais autêntica, onde me posso inteirar da vida real de quem ali mora. Há muito mais no país do que comerciantes de sorriso plástico a tentarem vender-nos a parafernália das suas bancas. É nestes momentos que guardo o mapa no bolso e gosto de me perder, de andar à deriva, ao sabor do que me vai captando a atenção. Viajar é também um salto para a liberdade, pelo que estar constantemente condicionado por um pedaço de papel cheio de indicações seria uma infeliz incoerência.
O silêncio que por aqui impera é aproveitado por uma ou outra criança para fazer os deveres da escola, sentada no lancil do passeio ou num pequeno banco de madeira, atentamente debruçada sobre a matéria a estudar. Do anonimato de um pátio interior solta-se um raspanete de mãe para filho com a mesma frequência que uma gargalhada anónima. Esta faceta do antigo “Império do Meio” agrada-me mais pela vida que decorre por detrás do pano, como se andasse nos bastidores de uma peça a que os outros assistem.
Uma ou duas ruas ao lado da confusão, emerge assim um outro mundo, mais fotogénico e humano, onde as pessoas olham para nós quando passamos e acenam simpaticamente, repetindo um ritual em que dois estranhos se cruzam por instantes, seguindo depois cada um as suas vidas, desaparecendo com a mesma facilidade com se que encontraram. Nenhum fala a língua do outro, mas ambos se compreendem no que têm de compreender, pois o que é essencial comunica-se com os olhos.
O ritmo é mais calmo. Aprecia-se a vida a cada instante, sem pressas. Joga-se às cartas ou dominó, ou põe-se a conversa em dia. As expressões denotam tanto de simplicidade como de alegria. Quem aqui vive não sentirá a pujança económica do país, mas fica subentendido que o seu conceito de felicidade não passaria seguramente por aí.

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