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Opinião: Escola

As tendas estão instaladas à porta do Ministério da Educação. O ato simboliza a disponibilidade dos representantes dos professores para a negociação com a governação da educação. Os temas da ansiada conversa acumulam-se há décadas, e já toda a gente ouviu falar deles: carreira, contagem de tempo de serviço, remuneração, contratação, gestão democrática, aposentação e as tantas mais matérias que são inquietações de quem resiste naquele ofício destratado.

Tendas que são metáfora, também, dos caminhos de casa-às-costas que permanecem condição de muitos professores – uns procurando a aproximação à família, usando a graduação profissional como ferramenta de deslocamento; outros sujeitando-se à lotaria dos horários de substituição, de duração incerta e localização onde calha.

A Escola ao alcance de todos é existência recente, muito por causa desse contingente de acampados, disponíveis para ensinar longe e perto. Não havia disso em 1976, quando, miúdo ainda, fui posto em Malpica do Tejo, numa brigada de alfabetização do Movimento Alfa, munido de fichas do método Paulo Freire impressas a stencil. Esse era, ainda, o tempo de acabar com o assinar de cruz com que o analfabetismo fazia prova de vida numa terra de pouca “instrução primária”, liceus para os mais abonados e escolas técnicas e industriais para a formação de quadros do Portugal a tentar sair do subdesenvolvimento. Parece coisa de antanho, mas não é. Nem que fosse só por isso, já a Revolução de Abril teria valido a pena.

“A verdade é que não basta a Portugal quem lhe tome conta dos filhos. Reduzir a escola à condição guardiã não é o mesmo que exigir uma educação de qualidade. O que está em causa é a governação de um pilar essencial da construção democrática – a Educação. De resto, está mais do que provado que exigir viver em dignidade não é diferente de educar para a exigência da dignidade”

Tempos andados, trabalhos dobrados, a escola da democracia impôs-se como última trincheira contra a adversidade – lugar ao abrigo da violência doméstica, ponto de encontro com o conhecimento e as artes, mesa posta em tempos de agressão por troikas e seus agentes, espaço de respeito pelas diferenças. Tudo isto – que é mesmo tudo, para algumas vidas – graças aos profissionais da educação, com natural destaque para os professores e seus representantes no plano da ação política. É por causa deles que a escola da democracia permanece o território seguro do combate à desigualdade. É também por causa deles que temos hoje a tal “geração mais qualificada de sempre”, que os governos atiram borda fora neste país entregue à deriva “europeia”.

É essa a Escola que está em luta, pelas justas razões de quem se vê sem amparo. Justas razões, é preciso sublinhar, mesmo que se percebam diferenças de procedimento entre os que agem continuadamente, usando a consciência de classe como motor da ação, e os que reagem em conjuntura, com o desvario próprio do desespero desenquadrado, às vezes sem conseguir identificar com exatidão o inimigo. Quando passar a febre dos “lideres” mediatizados, perceber-se-á que sem unidade na ação não se cumpre o velho refrão da “água mole em pedra dura”.

A luta é difícil, mais precisada de conquistar aliados do que de fabricar inimigos. No espaço televisivo e na vida dos comuns perfilam-se já as vozes do “populismo”, tão em voga no ambiente político nacional. Reduzem o conflito de interesses na Educação a uma questão de baby-sitting (como se diz em português), que é a queixa principal da CONFAP, desta vez convertida em associação de defesa do consumidor. Note-se que o “populismo” usa sempre justificadas zangas de conjuntura, aproveitadas para escamotear a razão funda dos problemas. Por isso desvaloriza o que realmente afeta a vida das nossas crianças: a falta de professores nas escolas, o envelhecimento dos corpos docentes, o desânimo numa carreira igual a uma corrida de obstáculos, a deslocalização convertida em fatalidade, a contratação em processo de fragilização, a precariedade, o endosso de responsabilidades educativas para os municípios.

A verdade é que não basta a Portugal quem lhe tome conta dos filhos. Reduzir a escola à condição guardiã não é o mesmo que exigir uma educação de qualidade. O que está em causa é a governação de um pilar essencial da construção democrática – a Educação. De resto, está mais do que provado que exigir viver em dignidade não é diferente de educar para a exigência da dignidade.

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