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Ecoam os tambores da “festa dos pobrezinhos” pelas ruas de Gaia

É a primeira romaria do ano a celebrar-se no país. A festa de S. Gonçalo, em Gaia, arrancou às 8 horas deste domingo e só termina às 21 horas, na igreja de Mafamude. Pelas ruas do concelho, ecoam os tambores da “festa dos pobrezinhos”, semeando sorrisos e reavivando memórias por onde passam.

À primeira romaria do país, junta-se uma promessa: “nos próximos 15 dias, aprovaremos um protocolo para financiar a reabilitação integral de roupas e de instrumentos da nossa nova comissão”. Ao compromisso do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, feito à varanda do edifício dos Paços do Concelho, na Avenida da República, perante a multidão que lá se acumulava, rufaram os tambores.

Para quem não sabe que festa é esta, Elisabete Ferreira, 47 anos, explica: “É a primeira do ano no país e é chamada a festa dos pobres. Todas as bandas são pobres e foram formadas de forma a alegrar as famílias. É uma tradição”. E quem fundou a Nova Comissão S. Gonçalo da Rasa, que está à porta da Câmara de Gaia, foi o avô da própria Elisabete. “Não o conheci, mas foi ele o fundador. Os meus primos estão todos aqui e já vamos nos filhos dos filhos”. Elisabete termina a frase e Palmira atira-lhe um beijo. É a prima.

“O meu pai andou nisto durante muitos anos. Agora ficou a herança. Gosto muito de S. Gonçalo. É até eu morrer”, diz, ao JN, Palmira Pinheiro. “Faço quarta-feira 56 anos e não largo isto. Nem durmo de noite só de pensar em vir para aqui”, atira a gaiense, acordada desde as três da manhã. “É muita ansiedade”, justifica.

Ensaios de preparação não foram precisos. “Já toda a gente sabe. Já ando atrás do São Gonçalo há mais de 40 anos”, reforça Palmira, vestida com a camisola do grupo, que reúne mais de 30 pessoas. “Quando morrer, vou levar esta camisola vestida”, diz, tal é a a paixão pela festa.

Paragem obrigatória

“Viva a festa dos pobrezinhos”, ecoa a comitiva em frente ao número 49 da Rua Coronel Macedo Pinto. É paragem obrigatória “desde sempre”. “Estava eu a ter o meu filho, no hospital aqui de Gaia, e São Gonçalo a passar. Elas a correr todas para a janela para ver e eu aflitinha”, conta Luísa Barbosa, de 75 anos. Foi a única vez que perdeu a passagem do grupo, recorda, entre as gargalhadas das netas.

“Primeiro era o meu tio a organizar, depois foram os filhos, mas infelizmente já morreram. Chamavam-lhes os ‘rainhas de Santo Ovídio’ Mas ele punha-os a tocar de uma maneira que nem queira saber “, explica Luísa. “Quando éramos pequeninas, andávamos atrás do São Gonçalo. Chegávamos tarde a casa, para almoçar, e o meu pai acertava-nos”, ri.

“A única vez que não tocaram aqui foi no ano em que a minha avó morreu. Vieram, pararam e fizeram um minuto de silêncio”, conta Ernesto Paulo Barbosa, filho de Luísa.

A família recorda as “rivalidades” entre os três grupos que circulam pelas ruas de Gaia no primeiro domingo depois do dia 10 de janeiro mas que, apesar de tudo, culmina numa “cerimónia bonita”, na igreja de Mafamude. “São os da Rasa de Cima, os da Rasa de Baixo e depois os Mareantes”, explica outro dos filhos de Luísa, Ernesto Luís Barbosa, de 48 anos.

Aos irmãos, a festa recorda-lhes os tempos de infância. Ernesto Paulo confessa que “na altura, não apreciava muito mas [a romaria] cada vez lhe diz mais”.

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