A estrela em ascensão que vai ao Mundial feminino e ajudou a FIFA a rever os testes de género

Barbra Banda fez história no futebol olímpico, já era capitã e a estrela da sua seleção aos 21 anos e estava perto de assinar pelo Real Madrid no verão de 2022, quando foi afastada da CAN feminina por «razões médicas», o que queria dizer níveis de testosterona acima do que se considera normal. O tema, controverso e longe de consensual, interferiu no percurso de uma estrela em ascensão no futebol feminino. Agora, a FIFA viabilizou a presença de Barbra Banda no Mundial, onde a Zâmbia vai estrear-se, enquanto promete rever os regulamentos sobre «elegibilidade de género».

Foi em Tóquio, no verão de 2021, que Barbra Banda mostrou todo o seu potencial num palco global. A avançada, um talento de técnica e velocidade, já tinha jogado em Espanha, jogava na China, onde continua, e tinha capitaneado a seleção num apuramento histórico para o torneio olímpico. Antes da competição, apresentou-se assim, ao canal olímpico: «Ainda sou jovem, ainda estou a jogar e a desenvolver o meu futebol, mas sonho alto. Quero estar entre as melhores. O meu maior sonho é estar entre as melhores do mundo. Quero deixar uma marca, o meu nome, o meu próprio livro de recordes.»

Dito e feito. A Zâmbia estreava-se no torneio olímpico feminino e logo ao primeiro jogo teve pela frente a poderosa seleção dos Países Baixos. Perdeu por 10-3, uma derrota muito pesada, mas onde ainda assim se destacou o potencial de Banda: ela marcou os três golos da Zâmbia. E repetiu no jogo seguinte, com novo hat-trick no empate com a China, 4-4. Nunca ninguém tinha feito algo igual no torneio olímpico.

No final o selecionador, Bruce Mwape, reforçava a ideia de que aquela era uma jogadora especial. «Vi-a crescer do nada. Está sempre a aprender e é uma pessoa que quer aprender todos os dias. A atitude de treino dela é diferente das outras.»

O futebol que «era para rapazes», o boxe e Cristiano Ronaldo como exemplo

O caminho de Barba para se tornar jogadora de futebol não foi fácil. Ela começou a jogar na rua, inspirada pelo pai, que foi jogador mas nunca atingiu um nível profissional. No início nem botas tinha, conta. «Não era agradável ver os meus amigos calçar as botas e eu ter que jogar descalça», contou à BBC.

O desporto era também uma forma de ocupar o tempo e evitar ceder a outras tentações no ambiente social difícil onde cresceu. «Fui para o futebol para mudar a minha vida, porque às vezes ficar só ali sentada no bairro pode trazer-nos problemas a nós, raparigas.»

Não foi só futebol. Barbra também praticou boxe e entrou em competições. Ainda pratica, mas agora só nos tempos livres. «Ajuda-me a pensar depressa e a perceber a importância de equilibrar ataque e defesa, o que também é importante no futebol», disse ao site da FIFA.

O futebol levou a melhor. Barbra decidiu que queria seguir esse caminho e foi aprendendo, vendo também muitos jogos de futebol, de equipas femininas e masculinas. Uma das suas referências é Cristiano Ronaldo. «Gosto da forma como o Cristiano Ronaldo joga. Gosto da disciplina dele. Tenho a mesma força», disse ao Olympics.com.

A mãe encorajou-a a praticar desporto, mas de início não gostou da ideia de a filha se tornar jogadora, numa sociedade onde o preconceito em relação a raparigas a jogar futebol ainda é grande. «Muitos pais não deixam as filhas praticar desportos como o futebol. Dizem que é para rapazes. Passei por isso», contou na mesma entrevista. «A certa altura disseram-me que se não me concentrasse na escola e só me concentrasse no futebol tinha de deixar de jogar. Por isso, tive de equilibrar as duas coisas.»

Barbra persistiu. Começou por jogar na academia Bauleni e com apenas 13 anos foi chamada à seleção sub-17 da Zâmbia chegou às seleções. Na primavera de 2014 fez parte da equipa que disputou o Mundial sub-17, na Costa Rica. Foi por essa altura que convenceu em definitivo a mãe. «Quando ela me viu chegar à seleção foi quando decidiu que tinha de me apoiar.»

A crescer em Espanha

Depois do Mundial sub-17 mudou-se para um clube de maior dimensão, o Green Buffaloes, mas foi o seu percurso nas seleções que despertou a atenção na Europa. Em 2018, rumou a Espanha, depois de conseguir abreviar o cumprimento do serviço militar. O destino foi o Logroño, que tinha sido promovido ao primeiro escalão. Em duas épocas no clube, Banda fez 28 jogos e marcou 16 golos, entre eles um hat-trick ao CD Tacón, o clube que daria origem ao Real Madrid feminino. E evoluiu muito. «A forma como jogava na Zâmbia e como jogava na Europa é muito diferente», contou ao canal olímpico: «A Liga espanhola é muito forte e competitiva. Jogar em Espanha ajudou-me a melhorar de muitas formas.»

Ao fim de duas épocas transferiu-se para o futebol chinês. Assinou pelo Shanghai Shenglin por um valor estimado de 300 mil euros, uma das transferências mais avultadas no futebol feminino e logo na primeira temporada assinou 18 golos.

Hoje é uma das grandes referências do futebol feminino africano e partilha o seu exemplo inspirador através de uma fundação que criou para ajudar outras meninas. «Como muitas delas, eu não vim de um lugar de abundância e percebo o que significa precisar de ajuda e não ter ninguém para nos ajudar», diz: ‘Com esta fundação, procuramos apoiar programas que promovam o empoderamento de mulheres e crianças.»

Em dezembro de 2021, depois de fazer história em Tóquio, Banda integrou a lista do Guardian das 100 melhores futebolistas do mundo. E em junho de 2022 parecia definitivamente lançada para o topo do futebol europeu, com a imprensa espanhola a dar como certa a sua contratação pelo Real Madrid.

Fora da CAN por não cumprir os «critérios de género»

Mas foi por essa altura que as coisas mudaram. A 1 de julho, véspera do início da Taça das Nações Africanas feminina, a Federação da Zâmbia anunciou que a capitã e mais três jogadoras iriam falhar a competição por «razões médicas». Mais tarde, revelou que não tinham cumprido os «critérios de género». «Todas as jogadoras têm de passar por uma verificação de género, uma exigência da CAF, e infelizmente ela não cumpriu os critérios definidos pela CAF», disse o presidente da federação da Zâmbia, Andrew Kamanga, à BBC África.

Perante a incongruência de Banda ter sido elegível para os Jogos Olímpicos, competição sob alçada da FIFA, mas não para a competição africana, a CAF disse que a decisão não tinha partido da sua comissão médica. No meio da diferença de discursos entre as duas entidades, o facto é que as atletas falharam mesmo a competição.

Ela não pôde jogar a CAN, mas as companheiras estiveram à altura. A Zâmbia chegou às meias-finais da competição e com isso garantiu a primeira presença de sempre no Mundial feminino. Banda acompanhou a equipa ao longo da competição em Marrocos e no final as companheiras dedicaram-lhe o apuramento, enquanto ela deixava uma promessa: «Campeonato do Mundo, olha para mim.»

A violência do exemplo de Semenya

A confusão expôs a falta de clareza em torno da elegibilidade de género e os responsáveis da Zâmbia defenderam uma clarificação da questão. «Nesta altura, o melhor que podemos esperar é por uma solução a longo prazo para estes problemas, especialmente porque esta é uma jogadora que esteve num Mundial sub-17, jogou nos Jogos Olímpicos, jogou na China e em Espanha e até tem a possibilidade de ir para um dos clubes de Madrid. No entanto, não pode jogar no seu próprio continente, pela sua seleção», disse à ESPN o diretor de comunicação da federação, Sydney Mungala.

O representante da Federação revelou também que tinha sido sugerido a Banda e às outras jogadoras que recorressem a tratamento hormonal para regular os seus níveis de testosterona, mas elas recusaram. «Os nossos médicos falaram com as jogadoras e elas não quiseram passar por isso. Penso que tem efeitos secundários», disse Mungala.

Esta é uma questão controversa e com vários antecedentes. O caso mais notório de hiperandrogenismo e das suas implicações no desporto é o da atleta sul-africana Caster Semenya, que foi impedida pela Federação Internacional de Atletismo de participar em várias competições. Semenya chegou a submeter-se a esse tratamento hormonal e falou recentemente sobre a violência do processo, num programa da HBO. «Deixava-me enjoada, fez-me ganhar peso, ter ataques de pânico. Não sabia se ia ter um ataque cardíaco. É como agredirmo-nos com uma faca todos os dias.»

O exemplo de Semenya demonstra bem a complexidade do tema. Ela está impedida de correr em algumas distâncias, mas não noutras, e mantém até hoje uma batalha legal com a IAAF.

Depois há a questão dos direitos humanos e do direito à privacidade. A propósito do caso de Banda, a Human Rights Watch veio contestar a legitimidade dos testes de género e apelar a mudanças nos regulamentos da FIFA. «Estes procedimentos de testes de sexo são violações flagrantes dos direitos humanos, porque são estigmatizantes, baseados em estereótipos e discriminatórios», defende a organização.

FIFA revê «um tema muito complexo»

No final de dezembro, a responsável pelo futebol feminino da FIFA garantiu que Banda não está impedida de participar no Mundial. «Estamos ansiosos por acolhê-la na Austrália e na Nova Zelândia para competir», disse Sarai Bareman à BBC África, acrescentando que a FIFA está «a rever os seus regulamentos de elegibilidade de género».

Em causa estão várias questões, dos testes de género aos atletas transgénero, do impacto das alterações hormonais na performance desportiva ao direito à privacidade. «Nos próximos meses verão um novo conjunto de regulamentos por parte da FIFA, quando muitos desportos estão também a olhar para os seus regulamentos», diz Bareman: «É um tema muito complexo e há muitas pessoas com pontos de vista sobre ele. O nosso papel na FIFA é ter em conta essas opiniões, porque temos mesmo de compreender cada uma – a pesquisa, as evidências, as situações individuais, a questão dos direitos humanos. É uma grande decisão, e terá impacto em muita gente.»

Banda não jogou a CAN e não foi para o Real Madrid, mas continuou a mostrar o que vale. Logo em agosto, foi reintegrada na seleção e brilhou no Campeonato da COSAFA, competição de seleções da África austral. Marcou 10 golos, incluindo o golo no prolongamento da final, frente à África do Sul, que deu o título à Zâmbia.

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